Estão a caminho, febris e lascivas
Em plena avenida aparecem
Travestidas de todos os prazeres.
Quarta-feira de cinzas arrumam bagagem
E vão por aí,
Rabiscando promessas ainda érbias.
O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.
Cecília Meireles.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Quando a tarde vem, e o sol vermelho,
paira no horizonte, me ofuscando a vista,
vem um ancião, que me dá conselhos...
Diz que é santa a fé, que almeja a conquista.
E nesses conselhos eu vou me espelhando
com o passar dos anos, e o passar dos dias,
olho pro meu pai já um veterano
quem sabe adiante eu lhe traga alegria.
Este sertanejo que vive na caatinga,
que abre um sorriso tão encantador,
muitas vezes chora, mais nunca ele xinga
que bem diz a terra, e declara amor.
Este simples homem, que fala com as plantas,
que advinha a chuva ao olhar pro céu,
que se deita cedo, e cedo se levanta...
Que cultiva abelhas, e não lhe rouba o mel.
Antonio Hugo.
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar
Chico Buarque de Holanda.