5 de dez. de 2011

Carnavais

Antes do carnaval, paixões alucinadas
Estão a caminho, febris e lascivas
Em plena avenida aparecem
Travestidas de todos os prazeres.

Quarta-feira de cinzas arrumam bagagem
E vão por aí,
Rabiscando promessas ainda érbias.
Esperam o próximo ano.


Everaldo Augusto.







Vida de Urso

Esqueço-me sempre de aniversário,
Sou como um urso balú na floresta dos homens.
E como todo urso, urbano e ignaro,
Sei que a vida não tem data, é um dia após o outro,
Sem marcas pendentes no calendário.

Meus amigos fazem anos, eu faço de conta.
Não leio telegramas, não recebo emissários,
Não guardo sombras de ontem, Só uso o necessário,
E se vires me perguntar qual a minha fortuna,
Não sei, só sei que os anos são extraordinários.


Everaldo Augusto.

3 de dez. de 2011

Tu Tens Um Medo

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.


Cecília Meireles.

Máquina Breve

O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.


Cecília Meireles.

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.


Cecília Meireles.

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...


Cecília Meireles.

12 de nov. de 2011

Idas E Volta

Por quão teu sofrimento nele insiste
Se ontem dele bravio tu fugiste
Ainda que tardio foi o regresso
Foi falha tua vinda, sem progresso.

Ainda que ludíbrio o coração
O desejo da mágoa já corrói
Outra vez provocar tal aflição
Finge estar tudo bem a dor que dói.

Deveras amanhã bem mais serena
De taciturno já abre a boca e fala
As palavras de amor bem mais amenas.

Ah! Enaltecer n´alma harmonia
Sentimento de amor despedaçado
Por quanto...Restaurado a agonia.


Frasncisco Das Chagas Esmeraldo Mourão.

Apenas Preconceito

Que se esbagace o meu...To nem aí
Mas vou continuar olhando os teus
Pra que se preocupar, ora! Eu já vi
Eles são bem bonitos, viste o meu?

Esse olhar fosco e vesgo quase não
Enxerga coisa alguma, mas que coisa!
Olha direito, Vês! Meu coração
está desmilinguido também doído.

Lindo demais olhar nos olhos teus
Eu sei! Bastante tortos, mas eu gosto
o que há de fazer! Então: Olha o meu.

Não diga que meus olhos são pelados
foi acidente, queimou os cílios tudo
Ah sei! Os seus são bastante cabeludos.


Francisco Das Chagas Esmeraldo Mourão.

Prega e Ludibria

Eu vejo teu semblante cru, desnudo
Jesus maravilhoso, olha só o diabo
Encangado e enganando todo mundo
Aí vem ele liso feito quiabo.

Seguiu o povo de Deus, um vagabundo
E vai te azucrinar, pobre coitado
Bem feito tu és oriundo, bicho imundo.
Deus te castigará, ele bem irritado.

Um! Teu procedimento de hostil
Só praticas o mal, vais ranger dentes
És infernal, tremendo quão imbecil.

Dizes adorar, fala, de quem?...
Do demônio? Ladrão tu vais pagar
Rouba dos inocentes, tu, ninguém.


Francisco Das Chagas Esmeraldo Mourão.

As Cordas Da Viola

As cordas da viola vão tocando
a canção que é tão linda quanto infinda —
harmonia que a vida ensina e brinda
e a mão segue ligeira pespontando.

E a vida canta, vai unindo linda
as notas a luzir sob o comando
da voz com que se vão acasalando
em melodia hialina que não finda.

Lá uma corda quebra quando em quando,
e dessa viola as cordas não se trocam...
mas tocam as que ficam: tocam, tocam...

E as cordas da viola vão quebrando...
Até que já nos resta só memória —
o tempo em que tiníamos de glória


Laerte Antônio.

Mulher Ao Espelho

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.


Cecília Meireles.

16 de out. de 2011

A Vida

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?


Charles Chaplin.

15 de out. de 2011

O Velho Sertanejo

Quando a tarde vem, e o sol vermelho,
paira no horizonte, me ofuscando a vista,
vem um ancião, que me dá conselhos...
Diz que é santa a fé, que almeja a conquista.

E nesses conselhos eu vou me espelhando
com o passar dos anos, e o passar dos dias,
olho pro meu pai já um veterano
quem sabe adiante eu lhe traga alegria.

Este sertanejo que vive na caatinga,
que abre um sorriso tão encantador,
muitas vezes chora, mais nunca ele xinga
que bem diz a terra, e declara amor.

Este simples homem, que fala com as plantas,
que advinha a chuva ao olhar pro céu,
que se deita cedo, e cedo se levanta...
Que cultiva abelhas, e não lhe rouba o mel.

Antonio Hugo.

Mar e Lua

Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar

Chico Buarque de Holanda.

11 de out. de 2011

Pra Alminha Boa

Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola,
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola...

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente...
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente...

Mário Quintana.

10 de out. de 2011

O Palhaço

Ontem via-se-lhe em casa a esposa morta
E a filhinha mais nova tão doente!
Hoje, o empresário vai bater-lhe à porta,
Que a platéia o reclama impaciente.

Ao palco em breve surge...Pouco importa
O seu pesar àquela estranha gente...
E ao som das ovações que os ares corta,
Trejeita, e canta, e ri nervosamente.

Aos aplausos da turba ele trabalha
Para esconder no manto em que se embuça
A cruciante angústia que o retalha,

No entanto, a dor cruel mais se lhe aguça
E enquanto o lábio trêmulo gargalha,
Dentro do peito o coração soluça.

Pe. Antônio tomás.

O Irapuru

Dizem que o irapuru, quando desata
A voz - Orfeu do seringal tranqüilo -
O passaredo, rápido, a segui-lo,
Em derredor agrupa-se na mata.

Quando o canto, veloz, muda em cascata,
Tudo se queda, comovido, a ouvi-lo:
O canoro sabiá susta a sonata,
O canário sutil cessa o pipilo.

Eu próprio sei quanto esse canto é suave;
O que, porém, me faz cismar bem fundo
Não é, por si, o alto poder dessa ave:

O que mais no fenômeno me espanta,
É ainda existir um pássaro no mundo
Que se fique a escutar quando outro canta!

Humberto de Campos.

O Coração

O coração é a sagrada pira
Onde o mistério do sentir flameja.
A vida da emoção ele a deseja
Como a harmonia as cordas de uma lira.

Um anjo meigo e cândido suspira
No coração e o purifica e beija...
E o que ele, o coração, aspira, almeja
É sonho que de lágrimas delira.

É sempre sonho e também é piedade,
Doçura, compaixão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura.

Uma harmonia que dos anjos desce.
Que como estrela e flor e som floresce
Maravilhando toda a criatura!

Curs e Sousa.

O Condenado

A praça estava cheia. O condenado
Transpunha nobremente o cadafalso.
Puro de crime, isento de pecado,
Vítima augusta de indelével falso.

E na atitude do Crucificado,
O olhar azul pregado n`amplidão,
Pude rever naquele desgraçado
O drama lutuoso da Paixão.

Quando do algoz cruento o braço alçado
Se dispunha a vibrar sem compaixão
O golpe na cabeça do culpado

Ele, o algoz - o criminoso - então,
Caiu na praça como fulminado
A soluçar: perdão, perdão, perdão!

Augusto dos Anjos.

O Acendedor de Lampiões

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!

Jorge de Lima.